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[De como manipular estatística para favorecer um dado cenário]
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De como manipular estatística para favorecer um dado cenário

IVAN VALENTE

É sabido que a grande imprensa interpreta e apresenta os fatos de acordo com as suas preferências políticas. Isso seria menos grave, em primeiro lugar, se a posição ideológica fosse mais assumida e, segundo, se outras opiniões também circulassem como contraponto. De modo geral, não é o caso, vista a concentração de informação nos monopólios dos meios de comunicação.

No último domingo, foi divulgada uma pesquisa Datafolha que avalia a expectativa dos brasileiros em relação à economia e a compreensão do governo Temer. A maneira como foi apresentado o resultado conduz o leitor a uma compreensão equivocada dos números e do contexto político. A manchete que se deu foi “Cresce otimismo com a economia, diz Datafolha”.

O gráfico mais comemorado pela edição indica que a expectativa do brasileiro em relação à economia aponta, a princípio, a um relativo aumento no otimismo. Atualmente 38% acreditariam que a economia tende a melhorar, contra os 28% de fevereiro deste ano. Continuam sendo números fracos. Mais confuso é o fato de a continuação da enquete demonstrar números que contradizem o primeiro gráfico. 60% acreditam que a inflação subirá. Somente 15% pensam que cairá. Aqueles que entendem que a inflação ficará como está são 20%. Quanto ao desemprego, 60% entendem que a carência será maior. 20% pensam que diminuirá e para 18% continuará como está.

Neste cenário, o que significaria acreditar em uma melhora na economia, se a esperança em relação a emprego e a inflação não atinge sequer os 38% comemorados pela Datafolha? Ou será que a “melhora na economia” significa apenas maiores lucros para rentistas, especuladores da bolsa de valores e outros que visam mais privilégios para poucos? Tem algo de mal explicado nessa pesquisa.

Não há grandes motivos para otimismo se, de acordo com o próprio Datafolha, os que acham que o Brasil é um bom lugar para se viver caiu de 61% para 53%. Ao passo que o “orgulho de ser brasileiro” foi de 71% para 67% e o índice de vergonha em relação ao país subiu de 26% para 30%.

Quando observamos a avaliação do governo interino, a situação é lamentável. 31% consideram ruim ou péssimo. 42%, regular. Minguados 14% julgam bom ou ótimo. Para o início de uma “nova fase” com o apoio das classes dominantes e dos veículos de comunicação, tais índices impressionam de tão baixos.

Algo que valeria maior destaque: 33% dos entrevistados simplesmente não sabem quem é o atual presidente da República. Visto os escândalos de corrupção que assolam o governo, as medidas impopulares que estão sendo prometidas e a incrível falta de carisma de Temer, se conhecessem de fato o presidente interino, podemos supor que seus índices de popularidade seriam ainda piores.

Também seria pior, muito provavelmente, “a cereja do bolo” da pesquisa: o gráfico na capa, que apresenta 50% defendendo que Temer deve continuar na presidência. Esse número supostamente legitimaria o afastamento de Dilma. Considerando que 33% não sabem que Temer é presidente, seria mais honesto destacar esse recorte, onde os 50% representam os entrevistados que ao menos conhecem o nome do interino. E infelizmente não há como medir qual seria a opinião dos brasileiros caso a maioria soubesse realmente tudo o que está em jogo.

Fonte: psol50.org.br
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